sábado, 12 de setembro de 2009

péssima maioria

uma péssima maioria de mulheres (geralmente da cidade grande) são seres cuja "razão de ser" é verificar, testar e aperfeiçoar seu poder de atrair o masculino e invejar o feminino. a satisfação dessas almas está amarrada/condicionada a esse tipo de sucesso, tornando secundárias as coisas que viriam depois de se alcançar a atração, que até é necessária, mas é apenas um primeiro passo, a ponta do iceberg.

elas são egos que vagam por aí, precisam ser olhadas por olhos de valor (sejam eles de alguém bonito*, de alguém com status, ou simplesmente olhos ainda não conquistados.. o critério varia). quando o olhar é conseguido, a cotação dessa conquista pode cair. e então, como todo humano, aquele ser recém-satisfeito deve encontrar alguma nova insatisfação pela qual continuar vivo. ex: almejar novos olhos, que sejam de maior valor ainda.. ou então não querer apenas movimentar aqueles olhos alheios, mas sim entortar a pessoa completamente, deixa-lo de joelhos, extrair mais daquele indivíduo.

extrair, consumir, digerir. aliás essa é a forma de agir que predomina no mundo. é pra isso que têm usado suas vidas. como se tivessem sido desmerecidas desde o início dos tempos, agora precisando sair por aí com fome de elevações de moral, ego-trips. seria essa a consequência de séculos de repressão? felizmente não são todas assim. viva as mulheres que, além de seduzir, lêem, cedem, enxergam, escrevem, criam, compartilham (e são capazes de dar pelo bel-prazer).

* talvez os olhares das pessoas bonitas geralmente sejam considerados valiosos por, a principio, pessoas bonitas serem bastante olhadas. ou seja, no final das contas, se resume ao critério "status"

domingo, 19 de julho de 2009

lacerdinhas

a rua Gago Coutinho, caminho meu para o aterro do Flamengo, sempre despertou minha curiosidade por causa do nome.. sempre imagino um sujeito baixo, meio afobado (e também gago, é claro). seria o cara que por ali viveu muito tempo, o "nome da rua", referência do local, querido por todos. sem pais, sem família, permeava os bares e portarias da rua. essa era sua forma de amenizar a solidão. à primeira vista, aparentava ingenuidade, mas conseguia as coisas que queria. um ser bem adaptado a seu meio.

numa tarde de sábado tranquila, eu voltava de bicicleta pela rua do gago, pensando na vida. velocidade lenta (ainda bem), leve subida que é aquela rua. de repente, sem mais nem menos, algo entra no meu olho direito, mas não foi um cisco convencional. o meu olho direito estava em chamas. nos momentos iniciais do sofrimento pensei "fudeu, é guimba de cigarro, vou ficar cego".. queimava muito mesmo. fiquei uns 5 minutos ali parado no canto da rua tentando causar muitas lágrimas pra dissolver o que quer que tinha entrado (fazendo um duto de ar com a mão até o olho e assoprando intensamente). chegando em casa, comecei o procedimento pra retirada do corpo estranho. Minha mãe, ao ver o que tirei:
- ah! é Lacerdinha!
Ela me contou que na década de 60, o Rio começou a ser infestado por uns insetos que bizarramente eram atraídos por tudo o que é amarelo ou branco. Li que eles ficam em algumas árvores, e como não são bons voadores, eles "saltam" e se deixam levar pelo vento (que bonito), causando a ira das pessoas que os recebem em seus olhos. Daí o chamaram de Lacerdinha, em homenagem ao político Carlos Lacerda (aquele que fazia remoção ou incêndio em favelas, pra dar uma melhor qualidade de vida aos donos do setor imobiliário, e também apoiou o golpe de 64).

Lacerdas. em sua forma política (esquerda (só na foto)) e de inseto (Lacerdinea queimantis)
Lacerdas filhos da puta!

domingo, 10 de maio de 2009

cantos coadjuvantes

sim, eles existem, mas você não costuma lhes dar atenção
talvez só tenham sido olhados no tête-à-tête pela pessoa que fez a pintura da parede ou trabalhou na construção

o seu lugar.. é seu, como mostra o nome. vive (na sua realidade) em função do dono, está aí para servir, modificado como for preciso. geralmente os lugares mais valorizados da sua casa são aqueles funcionais. os que armazenam um sofá, uma cama, um vaso sanitário, têm mais status que uma quina de teto de corredor, por exemplo. mas ela tem seu valor.. é suavizada, um detalhe que quase não dá pra ver pois a luz não atinge muito.. há pedaços consideráveis de parede e tinta que, em K anos vivendo nessa casa, ninguem jamais encostou (fora seu criador). nem poeira deve ficar direito ali. talvez só lagartixa de vez em quando tenha tido essa oportunidade (talvez aquela quina seja algo como uma "praça" para elas, e o corredor nosso passe despercebido, inalcançável como o ar que está longe).

o seu lugar é mais que as partes que abrigam funções convencionais. a vida moderna te coloca pra correr, te acostumando a usar o ambiente, sem olhar pra ele de outras maneiras que não a de um usuário convencional. taí outro exemplo de Vista Cansada

sábado, 14 de março de 2009

de copo e alma

em março tão saindo vários posts. talvez um prenúncio de um futuro limitado

no novo ângulo pelo qual tenho enxergado as coisas, é fácil ver o quanto uma mente retraída pode nos limitar de bobeira, por mero vacilo. um objeto vai ilustrar isso: um copo, que eu acabara de usar no MegaMatte, em Niterói. olhei para o copo e pensei: "é um copo realmente muito bom, apesar de descartável, é de um isopor diferente, e tem 500ml, melhor que os de casa."

quis levá-lo pra casa, para tomar meus sucos sem necessidade de recarga, mas ainda tinha coisas por fazer. procurar/experimentar/comprar roupa pra usar no trabalho (eu sempre me vesti que nem moleque), pegar onibus cheio tb, ir numa palestra, etc. e como o copo é quebrável, não poderia coloca-lo na mochila. ia carregar na mão por horas.

geralmente eu já pensaria nas pessoas olhando e não entendendo (e na dificuldade de manejar coisas como abrir a mochila, o troco do onibus, mexer nas camisas etc), e desistiria, vendo o copo como uma 'questão pequena' que não vale o esforço (mental, pq o fisico é só desculpa pelo constrangimento).. tem que ligar o foda-se mesmo, que nem o Leo, que se alonga nas hastes do vagão do metrô

e fui nos lugares, eu e o copo, fizemos um bom passeio no dia.. só na prática mesmo pra ver que é zero problema as pessoas olharem.. a mulher do provador, as pessoas nas filas, nos caixas, a garota q sentou do meu lado no onibus.. achando ridículo ou não, é até um bom iniciador de papo. e o ridículo pode ser manero, tava faltando perceber isso. olha ele aí:

domingo, 8 de março de 2009

aeroporto nostálgico

trilha sonora:

desde criança tenho um sentimento estranho relacionado a aeroportos de noite, um clima peculiar de viagem. hoje eu enxergo a seguinte cena no aeroporto: um restaurante legal, iluminação pouca e boa, faltando 2 horas para o embarque em noite fria e estilosa. a sensação de leveza predomina, apesar da solitude companheira de sempre.

algumas pessoas passando se olham com um 'algo a mais', é o momento de ansiedade e despedida (ou reencontro). cada uma com suas histórias e problemas, são indecifráveis ao olhar, mas permitem uma vaga noção. outras só estão trabalhando. de qualquer forma, o terminal vazio deixa cada um nele um pouco menos coadjuvante de seu próprio momento. a bagagem, minimalista, parece ter o suficiente. afinal, os momentos (e são eles que realmente interessam) não pesam nem ocupam espaço, a não ser na memória, tão grande quanto for o tempo. bagagem de mulher é nitidamente maior.

o avião é um ambiente interessante, até dá pra aceitar viver nele por algumas horas. existem vizinhos ao seu lado, às vezes da pra trocar uma idéia, ou uma revista.. crianças chorando, comissárias bonitas passando, alimentação 'grátis'. as luzes da cidade vão deixando saudades enquanto se afastam, simbolizando coisas que vão ficar longe.

não sei se isso tudo é na ida ou na volta, a vontade é de não poder distinguir uma da outra

quinta-feira, 5 de março de 2009

sopravvivere

é bom lembrar que não somos diferentes das outras formas de vida, por mais simples que sejam, se olharmos por fora, pelo ângulo da participação no meio.. estamos aí consumindo, reproduzindo, sobrevivendo, tanto quanto as bactérias.

mas internamente o ser humano consegue complicar as coisas. não nos sentimos sobrevivendo de fato sem atender a algumas regras. é como se tivéssemos que várias coisas: ter um rumo na vida, fazer uma faculdade, ajudar ao próximo, atingir um peso ideal, "mandar bem", ter um feriado divertido e/ou com viagens, etc.

entretanto não consigo deixar de concordar com o Davide do filme 'Janela da Frente', ao propor outra complicação: não devemos nos contentar por sobreviver, mas sim viver num mundo melhor, não apenas sonhar com ele. obviamente 'mundo melhor' aí não é todos estarem amigáveis e ecológicos, mas sim ter uma vida que valeu a pena, cada um ao seu gosto. e sobreviver significa 'continuar vivendo'.

agora vem a pergunta: estaria aí a diferença entre os humanos e as outras espécies?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

sobre a vista cansada

um dia, fazendo um concurso público, me deparei com um ótimo texto:
Vista Cansada, de Otto Lara Resende (leia)

sobre o poeta ser "um modo de ver", concluo que deveríamos ser poetas (pelo menos um pouco) nessa vida. é a forma de personalizar (dar a nossa cara a) esse filme que está rodando desde que nascemos (do qual nem todos somos diretores). não precisa ser poeta de escrever versos e estrofes no papel, afinal poucos têm talento para isso. a poesia pode estar, por exemplo, na forma de tirar uma foto, enxergando por ela um universo mais rico que a coleção de objetos retratados fisicamente. ou no modo de assistir um filme.. ou uma mulher que volta do trabalho apoiada no metrô, que instiga a imaginar por quê ela faz aquela cara de angústia.. enfim, é a capacidade de, até no consumo, você dar propriedade ao ato, mesmo que tudo ocorra dentro da sua cabeça.

o que o autor fala é importante: por aí tem muito pai que não vê o filho, muito marido que não vê a mulher e vice-versa. pior: a falta de "poesia" (nesse contexto) é aprendida e repassada pelas gerações e relações. como ninguém se entretém com aquilo que não vê, a vida fica mecânica, orientada a fatores externos previsíveis (geralmente obtidos através de dinheiro) e os grandes momentos de um dia correm o risco de ser "prova do lider do big brother" e "ir pra balada".